Destaques

Úlceras orais: uma interface com a psiquiatria

Por: Pedro Rocha e Antônio H. Roberti.

 

A medicina vem mudando constantemente, principalmente na incidência de doenças agudas e crônicas na sociedade, de acordo com que essa evolui. Antes, as doenças infecto-contagiosas predominavam o ambiente social, porém hoje observa-se maior número de doenças de natureza cardiovascular, metabólicas e neuropsiquiátricas. No entanto, você está no início do seu plantão de porta de hospital quando chega um paciente de 30 anos, com queixa de haver uma erosão na boca e que os dentes estavam muito frágeis, gerando extrema dor a qual inviabilizava seu sono há 1 semana. Observe a figura!

 

 

Durante a anamnese, o mesmo relatou que encontrava-se insatisfeito com sua forma física, sendo que as vezes até comia demais, principalmente durante um problema psicológico, e que compensava essa alimentação demasiada com atividades físicas exaustantes e indução de vômitos. E aí, qual a provável hipótese diagnóstica?

 

Esse caso acima foi postado pelo The New England of Medicine, levantando as opções de diagnóstico: bulimia nervosa, abuso de cocaína, líquen plano, angina de Ludwig e osteonecrose. Pelo caso clínico proposto por nós você consegue definir uma hipótese diagnóstica? Sim, era bulimia nervosa. Tal transtorno alimentar é caracterizado por episódios de ingesta excessiva de alimentos devido uma descompensação psicológica (medo, angústias, tristezas, inconformidades e ansiedade) seguida de uma tentativa de compensação para que haja controle do peso, assim como indução de vômitos, exercícios físicos exaustantes, uso de medicamentos laxantes, uso de cocaína, abuso de cafeína e dietas inadequadas e/ou jejuns prolongados. Esses pacientes apresentam, além desse quadro clínico citado acima, oscilação da sua auto-estima, resultando em tal doença. No caso em questão, o desgaste dentário e a erosão em palato posterior era decorrente da alta ingesta alimentar e o alto número de vômitos durante o dia, fazendo com que o bolo alimentar regurgitado, contendo acidez estomacal, provocasse tais lesões.

 

Resumindo a bulimia nervosa: o paciente vai apresentar em determinado momento uma baixa da auto-estima, levando à ingesta exacerbada de alimentos calóricos. Após tal momento, há uma extrema preocupação com o peso, fazendo com que inicie um período de purgação, onde ele procura inúmeros métodos para perder peso, assim como dietas severas, indução de vômitos, uso de medicamentos laxantes, exercícios físicos exaustantes, entre outros. Além disso, essas pessoas se isolam do meio social, justamente por não se sentirem atraentes, podendo resultar em quadro de depressão. É de extrema importância que o profissional de saúde consiga identificar essas informações essenciais para formulação de um diagnóstico preciso e uma terapêutica precoce.

 

O diagnóstico é clínico, enquanto o tratamento da bulimia nervosa baseia-se em uma psicoterapia, objetivando a normalização da alimentação, com uma dieta adequada, estratégias de controle dos momentos que houverem compulsão alimentar e/ou nas compensações purgatórias, melhorar a auto-estima e a forma como se auto-critica. Nesse paciente, além de recomendar essa terapia, você poderia receitar analgésicos para melhorar a dor, um inibidor da bomba protônica no estômago (omeprazol, pantoprazol) diminuindo a secreção gástrica e favorecendo a cicatrização das lesões prováveis em tecido digestivo e encaminhá-lo ao dentista.

 

Como profissionais da saúde devemos descontruir a imagem que os transtornos psiquiátricos são “fragilidades”, mas sim doenças que necessitam de tratamento para que esse paciente melhore sua qualidade de vida. Além disso, identificar precocemente uma doença, exercer a terapêutica adequada e o acompanhamento evitam que apareçam complicações nesse paciente, assim como as citadas no caso clínico acima.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1) ABREU, Cristiano Nabuco de; CANGELLI FILHO, Raphael. Anorexia nervosa e bulimia nervosa: abordagem cognitivo-construtivista de psicoterapia. Rev. psiquiatr. clín., São Paulo , v. 31, n. 4, p. 177-183, 2004 .
2) LEONIDAS, Carolina; CREPALDI, Maria Aparecida; SANTOS, Manoel Antônio dos. Bulimia nervosa: uma articulação entre aspectos emocionais e rede de apoio social. Psicol. teor. prat., São Paulo , v. 15, n. 2, p. 62-75, ago. 2013 .