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Música e alzheimer: existe relação?

Por: Pedro Rocha e Antônio H. Roberti.

 

 

Durante o mês de novembro de 2019 um vídeo viralizou nas redes sociais e meios de comunicação, sendo de um jovem que compôs uma música para o seu avô que possui Doença de Alzheimer (DA) e esse cantava tal homenagem com seu neto. Isso despertou o interesse em muitas pessoas e levantou a dúvida se a música poderia realmente melhorar o prognóstico da doença em questão. Para entender um pouco mais sobre a patogenia da doença, as novas atualizações e a influência musical na sua evolução, nós, do Tudo de Medicina, resolvemos falar sobre!

 

A Doença de Alzheimer é uma neuropatia crônica, de caráter degenerativa, progressiva, resultando em déficits das funções cognitivas e funcionais do paciente, dificultando a realização das atividades de vida diária (AVD), podendo abrir quadro demencial. Isso deve-se ao acúmulo de placas da proteína beta-amilóide extraneuronais e emaranhados neurofibrilares intraneurais constituídos pela proteína tau localizada comumente no lobo temporal. Esse processo resulta em atividade inflamatória neurotóxica, sendo deletério ao cérebro. Diversos estudos vêm sendo realizados na tentativa de entender melhor a fisiopatogenia e a correlação com outros órgãos, além da busca de métodos que amenizem as consequências da doença.

 

Um estudo realizado na Itália, apresentado no 31º Congresso do European College of Neuropsychopharmacology, demonstrou a relação da microbiota intestinal com a Doença de Alzheimer. Uma das hipóteses é que essa microbiota pode aumentar a permeabilidade intestinal a componentes bacterianos tóxicos, principalmente lipopolissacarídeos, o qual cai na circulação e consegue atravessar a barreira hematoencefálica (BHE), podendo ser a origem do processo inflamatório. Estudos mais recentes mostram que probióticos poderiam ser a peça-chave para melhores prognósticos nesses pacientes, aumentando a capacidade cognitiva desses através da regressão do processo inflamatório na fase inicial da doença. Porém, ainda há muito o que ser estudado sobre o assunto.

 

Porém, voltando ao assunto da música, um estudo descritivo-observatório, de abordagem qualitativa, realizado na Universidade Federal de Goiás em 2012, buscou avaliar o efeito da terapia musical em pacientes diagnosticados com Doença de Alzheimer. Apesar da limitação do baixo número de pacientes observados, verificou-se que nesses a música apresentou resultados benéficos, assim como: estímulo neurocognitivo, impulsionando emoções de imaginação e evocando sentimentos e lembranças; melhor controle da dor crônica; diminuição da inquietude e sofrimento provocado pelo quadro demencial; melhor padrão de sono; entre outros. Outro estudo realizado na cidade de Juiz de Fora – MG em 2018, o qual fez uma revisão sistemática da literatura sobre o assunto, confirmou os benefícios citados acima, mas demonstrou que há uma fragilidade das pesquisas, devido o baixo número de ensaios clínicos-randomizados.

 

Diante disso, é notório perceber a importância da terapia musical no paciente com Doença de Alzheimer. O que o neto no vídeo fez pelo avô, apesar de simples, tem um caráter importante no estímulo neurocognitivo. É perceptível a felicidade do avô durante a música e o mesmo conseguiu armazenar partes da letra devido a emoção que isso traz a ele. Apesar da limitação dos estudos, é viável que os profissionais da saúde utilizem dessa abordagem para retardar a evolução da doença e melhorar o prognóstico desses pacientes. E aproveitamos a ocasião para parabenizar o neto pela emoção transmitida e o carinho com seu familiar.

 

REFERÊNCIAS
1) Albuquerque MCS, Nascimento LO, Lyra ST, Figueredo Trezza MCS, Brêda MZ. Os efeitos da música em idosos com doença de Alzheimer de uma instituição de longa permanênciaI. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2012 abr/jun;14(2):404-13.
2) MOREIRA, Shirlene Vianna; JUSTI, Francis Ricardo dos Reis; MOREIRA, Marcos. Can musical intervention improve memory in Alzheimer’s patients? Evidence from a systematic review. Dement. neuropsychol., São Paulo , v. 12, n. 2, p. 133-142, June 2018 .

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