Saúde mental

Asma e transtornos psiquiátricos: existe relação?

Por: Pedro Rocha, Antônio Henrique Roberti dos Santos e Humberto Batista.

 

 

Fazer correlações entre assuntos dentro da medicina tem se tornado cada vez mais comuns, principalmente pelo avanço científico que mostra relações contextuais que antes não eram conhecidas. Um dos exemplos é falar sobre psoríase e os seus efeitos sistêmicos dentro da cardiologia, sendo que esse é um assunto comum da dermatologia, sabendo atualmente que ela pode favorecer o surgimento de doenças cardiovasculares. Além disso, há uma forte relação entre depressão / ansiedade com a precipitação da asma, fazendo uma miscelânea entre a neuropsiquiatria e a pneumologia. E é desse assunto que vamos comentar aqui! Você sabe o que é a asma? É um processo inflamatório crônico pulmonar caracterizado pela broncoconstrição reversível, fazendo com que o paciente apresente dispneia, sibilos, tosse e, em casos mais graves, insuficiência respiratória. Atualmente ela atinge cerca de 20 milhões de brasileiros. As causas são desconhecidas, sendo que alguns estudos apontam para o fator genético, porém, o que se conhece, são os gatilhos que podem desencadear as crises asmáticas, sendo eles: exposição à alérgenos, infecções de vias aéreas e os fatores psicológicos como ansiedade, estresse e depressão. Você sabia disso?

 

É estimado que cerca de 30% dos asmáticos possuem crises de ansiedade e 10% depressão, principalmente na asma de difícil controle. Esses pacientes têm cerca de 11 vezes de maiores chances de terem 2 ou mais exacerbações e 5 vezes mais chances de serem hospitalizados em um ano. Para comprovar esses dados, foi realizado um estudo transversal em Niterói – RJ, incluindo pacientes com idade de 18 anos ou mais, de ambos os sexos, com diagnóstico de asma confirmado, avaliando através de questionários os dados sociodemográficos, história prévia de transtorno psiquiátrico (TP), tratamento atual da asma e do TP e realização da espirometria.

 

Os resultados obtidos na pesquisa mostraram que, do total de asmáticos, cerca de 56% sofriam de transtorno psiquiátrico, sendo 48% de ansiedade, 25% de depressão, 11% de síndrome do pânico, 10% de transtorno obsessivo-compulsivo e 7% bipolaridade. Além disso, 22,5% do total sofriam de ansiedade e depressão associadamente e 24% revelaram ideação suicida em algum momento. Em contrapartida, 50% desses que referiram TP possuíam o diagnóstico confirmado por um especialista. Foi observado também que havia uma alta frequência da relação entre TP e asma não controlada, confirmada por outros autores em outros estudos. Porém, apesar de 73% dos pacientes relatarem que aderiram ao tratamento solicitado pelo médico, essa avaliação é difícil por ser auto-relatada, podendo limitar a validade das respostas.

 

Apesar desse estudo realizado estar sujeito a limitações de validade das respostas dos pacientes, impossibilitando determinar se a ansiedade e depressão são causas de asma não controlada, ainda é possível observar uma relação muito grande entre esses fatores. Além disso, a prevalência de TP nos asmáticos tem valor significativo, devendo ser associado a propedêutica e terapêutica desse tipo de paciente, melhorando a adesão ao tratamento e, por consequência, o prognóstico, uma vez que grande parte desses estão associados à asma de difícil controle. Dessa forma, diminuiria o número de exacerbações por ano, resultando em menores gastos da saúde pública, gerando um contraste social de economia. Por fim, vale ressaltar que o bom profissional sabe ouvir o paciente e as queixas dele, buscando uma melhora do quadro clínico, não somente da doença em questão, mas das causas que estão propiciando a mesma.

 

COMENTÁRIO DO ARTIGO: PÊSSOA CLC, et al.; Impacto da ansiedade e depressão no controle da asma. Revista Brasileira de Neurologia e Psiquiatria. 2019 Jan./Abr;23(1):4-13.