Sala de emergência

Sepse: um pesadelo nas unidades de terapia intensiva

Por: Pedro Rocha e Antônio Henrique Roberti dos Santos.

 

 

A sepse é uma doença potencialmente grave ocasionada por uma resposta inflamatória sistêmica devido uma infecção, sendo mais comum por bactérias, qualificada como uma emergência. Geralmente, para que haja essa doença, é necessário um foco infeccioso, podendo ser através de uma pneumonia, infecção urinária, peritonite, erisipela, entre outros. Segundo o Instituto Latino Americano de Sepse (ILAS), a cada 1 minuto, cerca de 3 pessoas morrem de sepse no mundo, sendo responsável pela ocupação de 25% dos leitos nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Alguns sintomas comuns para a mesma é a confusão mental, febre, dores musculares, sensação de monte iminente, baixa produção de urina, equimoses, dispneia, entre outros. Ela é, atualmente, dividida em 3 fases: sepse, como já explicado acima; sepse grave, quando há comprometimento de algum órgão; choque séptico, quando há uma hipotensão drástica que não responde à administração intravenosa de volume. Porém, um grande problema que encontramos em nosso país é a falta de recursos para o suporte e terapêutica dessa doença, resultando em altos níveis de mortalidade. Para o tratamento, são utilizados mais comumente os antibióticos de amplo espectro, vasopressores e reposição de líquidos, além das medidas básicas.

 

Diante do cenário citado acima, foi realizado em São Paulo – BR um estudo prospectivo de prevalência através do SPREAD (Sepsis Prevalence Assessment Database) avaliando a epidemiologia da sepse nas UTIs para adultos no Brasil, comparando com a disponibilidade de recursos para tratamento da mesma, a partir do censo da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Para isso, cerca de 317 unidades foram elegíveis para a pesquisa, respondendo um questionário do levantamento de recursos. Os resultados mostraram que: 2/3 dos hospitais tinham como principal fonte de recurso o Sistema Único de Saúde através dos atendimentos aos pacientes. Além disso, 247 possuíam pronto-socorro e 274 centro-cirúrgico, porém em apenas 73,2% havia laboratório de microbiologia e a metade não possuía banco de sangue. Do total, 10,5% não conseguiam administrar antibióticos de amplo espectro, 3,2% não tinham cristaloides e 1,8% não tinham vasopressores. Por fim, 21,3% não conseguia realizar hemocultura e 21,3% não podia medir níveis de lactato dentro de 3 horas. As unidades que possuíam todos recursos necessários para a propedêutica e terapêutica da sepse eram instituições localizadas em capitais e, grande parte, que conseguiam renda do setor privado.

 

Analisando os resultados, visualiza-se que um número substancial das unidades pesquisadas não possuía o necessário para dar suporte ao paciente com sepse, principalmente nas medidas básicas e no tratamento. Isso não ocorre na mesma frequência em unidades localizadas nos grandes centros urbanos, capitais ou instituições particulares, refletindo à uma realidade encontrada nas diversas cidades brasileiras. Além disso, cerca de ¼ das UTIs não conseguem cumprir o conjunto de medidas em 1 hora devido a falta de recursos. Nesse estudo houve a presença de limitações, assim como o autopreenchimento dos questionários, não havendo avaliações presenciais para avaliar a confiabilidade do que foi dito em resposta, porém é visível que esse cenário predomina no Brasil.

 

Ademais, torna-se notória a necessidade de intervenções do Governo Federal nos hospitais com UTIs para estruturá-los a fim de conseguir dar suporte ao paciente séptico, seja na propedêutica quanto na terapêutica, buscando diminuir as elevadas taxas de mortalidade da sepse e melhorar a gestão do dinheiro público destinado à saúde.

 

COMENTÁRIO DO ARTIGO: TANIGUCHI, Leandro Utino et al . Disponibilidade de recursos para tratamento da sepse no Brasil: uma amostra aleatória de instituições brasileiras. Rev. bras. ter. intensiva, São Paulo , v. 31, n. 2, p. 193-201, June 2019 .