Sala de emergência

Neurocisticercose: entenda sobre essa doença

Por: Pedro Rocha e Antônio H. Roberti.

 

Mais um dia de plantão agitado, quando no final dele chega um paciente à você com quadro de convulsão tônico-clônica generalizada. Após a estabilização e fim da crise, esse se encontrava confuso, com inchaço no olho direito e uma sensibilidade no testículo direito. Foi solicitado uma Ressonância Nuclear Magnética (RNM) de crânio que evidenciou lesões císticas bem definidas em todo córtex cerebral (imagem 01 abaixo). E aí, quais hipóteses você sugere diante desse caso clínico? Esse foi o caso divulgado pelo The New England Journal of Medicine em março de 2019, muito interessante, que nos despertou o interesse de realizar um comentário para que vocês entendam o assunto. Dentre as hipóteses diagnósticas, a principal seria neurocisticercose, a qual foi confirmada através dos resultados positivos de IgG. Outras doenças poderiam ser suspeitadas como diagnóstico diferencial, assim como metástases, neurossífilis e vasculites. Você conhece essa doença? Se não, ou conhece pouco, continue lendo nosso comentário, aqui no Tudo de Medicina.

 

A neurocisticercose é uma doença parasitária causada pelo helminto Taenia solium, principalmente pela contaminação através da ingesta de ovos de T. solium em excretas humanas ou através da forma retrógrada de proglotes que se dirigem ao estômago e eclodem as oncosferas com cisticercos (paciente precisa estar com teníase para que esse processo ocorra), podendo migrar para vasos sanguíneos, tecidos, vísceras e para o Sistema Nervoso Central. Atualmente, a neurocisticercose é a principal causa de epilepsia secundária na América Latina, sendo mais comum na América do Sul. Em regiões onde não há saneamento básico, a frequência de casos aumenta em comparação com as que possuem.

 

Dentre os sintomas principais, temos: cefaleia, convulsões, déficits neurológicos focais, alteração do estado mental e sintomas ligados ao efeito de massa levando a hipertensão intracraniana, além da encefalite – essa ocorre não por agressão do parasita, mas como consequência da resposta imunológica que o organismo do ser humano tem na tentativa de resposta à infecção.
Diante disso, como diagnosticamos um paciente com neurocisticercose? Primeiro passo é realizar uma anamnese detalhada, buscando investigação, principalmente sobre ingesta de carne de porco (principal forma de contaminação da Taenia solium) e saneamento básico. Além disso, um exame físico de qualidade é indispensável para detectar os déficits que o paciente venha apresentando. Por fim, deve ser solicitado exame de imagem (tomografia computadorizada com contraste ou RNM) e oftalmoscopia para avaliar presença de lesão retiniana. Pode ser solicitado o exame parasitológico das fezes para detectar ovos ou proglotes nas fezes, indicando teníase. Além disso, deve-se buscar avaliar a família, pelo risco de contaminação pela mesma fonte.

Por fim, para iniciar o tratamento deve avaliar os sintomas que o paciente apresenta, a localização e quantidade das lesões cerebrais e o estágio da doença. Se houver edema cerebral difuso e/ou hidrocefalia hipertensiva, essas condições devem ser tratadas primeiro, para depois pensar no tratamento da neurocisticercose, buscando, principalmente, reduzir o processo inflamatório e evitar complicações. Nesses, é avaliada a quantidade de cistos presentes para definir se é necessário a associação de outros antiparasitários. Os fármacos mais utilizados são albendazol (não irá resolver se os cistos já estiverem calcificados), praziquantel (em casos mais graves) e corticoterapia para evitar hipertensão intracraniana e edema. A terapêutica deve ser bem avaliada por um especialista, uma vez que antiparasitários podem até aumentar a exposição à complicações. Caso haja alguma complicação, como hidrocefalia obstrutiva originada pelo cisticerco, a cirurgia está indicada.

Para terminar esse comentário, vale destacar o principal ponto: a prevenção! Para isso, deve-se cozinhar bem carnes de porco, evitando ingesta dessa mal-passada ou crua. Além disso, é importante lavar bem os alimentos e as mãos e, em casos onde não há saneamento básico na moradia, solicitar ao órgão público a promoção desse direito do cidadão.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1) Diagnosis and Treatment of Neurocysticercosis: 2017 Clinical Practice Guidelines by the Infectious Diseases Society of America (IDSA) and the American Society of Tropical Medicine and Hygiene (ASTMH).
2) SINGH, Gagandeep; SANDER, Josemir W.. Neurocysticercosis as a probable risk factor for hippocampal sclerosis. Arq. Neuro-Psiquiatr., São Paulo , v. 76, n. 11, p. 783-790, Nov. 2018 .
CASO CLÍNICO RETIRADO DO THE NEW ENGLAND JOURNAL OF MEDICINE

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