Profissional em formação

Quem vai cuidar de quem cuida?

Por: Pedro Rocha, Antônio Henrique Roberti dos Santos e Humberto Batista.

 

 

O ingresso na faculdade é um sonho desejado por inúmeros jovens, incentivados pelas políticas de acesso ao Ensino Superior e a importância de possuir alguma graduação para conquistar um bom lugar no mercado de trabalho. Um dos principais cursos que se destacam por essa realização e pela força de vontade dos adolescentes e adultos é a medicina. Ao entrar no tão sonhado curso, o jovem imerge em um cenário novo desconhecido para a maioria, composto por: extensas cargas horárias, provas, estágios, distância da família, morar sozinho, inúmeras festas como meio de escape do estresse, cobranças e a pressão familiar e social. Nessa nova etapa, ocorrem os primeiros sinais de desgaste emocional no estudante, fazendo com que, muitos desses, busquem soluções em substâncias lícitas e ilícitas. Atualmente, o álcool, tabaco e a maconha são as principais substâncias utilizadas como “válvula de escape” para os sentimentos negativos, como tristeza, medo, insegurança e raiva. Diante desse contexto, quais são os fatores associados à manutenção do vício de fumar e do consumo de álcool entre acadêmicos de medicina ?

 

Um estudo de prevalência analítico realizado em Fortaleza – CE, entre 2012 a 2016, em 4 faculdades de medicina da cidade, buscou verificar a questão acima em acadêmicos do curso de medicina. Vale ressaltar, desde já, que não é apenas nesse curso onde essa realidade ocorre, mas em todos cursos de ensino superior, porém, neste estudo, será falado de um apenas. Para a realização da pesquisa, foram aplicados 2 questionários: um em 2012, quando os estudantes estavam no início da formação e outro em 2016, quando esses já estavam na internato frequentando hospitais.

 

Após a análise dos questionários, os resultados foram surpreendentes. O consumo de bebida alcoólica entre os acadêmicos de medicina aumentou de 36,1% para 81,9%, mostrando que, de acordo com o decorrer da faculdade, a ingesta dessa substância aumenta consideravelmente, sendo a cerveja, chopp e vodca os principais relatados. Desse total, 83% afirmou a necessidade de haver um treinamento para desestimular a ingesta e mudar o hábito. Quanto ao tabagismo, o hábito de fumar aumentou de 17,4% à 28,2% no final do curso, com maior prevalência no sexo masculino e, desse total, 84,4% declararam a necessidade de um treinamento para cessação do tabagismo. Por fim, os maiores índices para essas dependências foram encontrados em jovens solteiros e do sexo masculino.

 

Diante desse resultado, concluímos que a maior dependência ocorre na internato, visto que é uma etapa onde o acadêmico de medicina recebe maiores cobranças, está próximo à formatura e o ingresso no mercado de trabalho, devendo saber lidar com todas circunstâncias e pressões que ele presenciará durante o serviço. Não é que falte informação à esse estudante sobre os malefícios que o tabaco, álcool e outras substâncias causam ao corpo humano, porém há uma dificuldade para que eles percebam como possíveis portadores de doenças geradas pelo consumo desses. Além disso, ainda existe a cobrança para aprovação na prova da residência, que colocam muitos a busca de cursos preparatórios, aumentando a carga horária e expondo-os ao desgaste físico e emocional. Por fim, nota-se pouco interesse das faculdades em criar e/ou otimizar e/ou maximizar o setor responsável pela saúde mental dos acadêmicos.

 

É necessário que seja investido na saúde mental dos acadêmicos, principalmente os da área da saúde, pois esses são treinados à cuidar dos outros e acabam esquecendo de cuidar de si mesmos. Uma vez que esses transtornos mentais consigam ser solucionados, logo esses estudantes conseguirão melhorar a cognição mediante às circunstâncias, resultando em melhor desempenho e resultado. Além disso, a atitude desses frente à sociedade é exemplo para outras pessoas seguirem, visto a importância que o médico tem e o respeito que a figura dele representa. Por fim, termino com a seguinte frase: e quem vai cuidar de quem cuida?

 

COMENTÁRIO DO ARTIGO: GOMES, Ileana Pitombeira et al . Fatores Associados à Manutenção do Vício de Fumar e do Consumo de Álcool entre Acadêmicos de Medicina em uma Capital do Nordeste do Brasil. Rev. bras. educ. med., Brasília , v. 43, n. 1, p. 55-64, Mar. 2019 .
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