Destaques

A velha e boa medicina: o método clínico

Por: Pedro Rocha e Antônio H. Roberti.

 

Apesar de inúmeras publicações sobre doenças e tratamento, por muitas vezes nos perdemos nas condutas e terapêuticas, esquecendo do essencial: o método clínico. Ele sim vai tornar possível a criação de uma hipótese diagnóstica, para que seja exercida uma conduta adequada para aquele paciente.

 

Sobre esse assunto, você está de plantão no pronto-socorro quando abre a porta o próximo paciente: um senhor de 70 anos, trabalhador da zona rural, branco, com uma higiene boa, tímido por estar naquele local, diabético e hipertenso. Ao iniciar o atendimento e questionar o motivo de estar ali, ele reclama que há 1 ano aproximadamente começou sentir dor em membro inferior esquerdo ao movimentar, principalmente enquanto andava no seu terreno colhendo laranjas da sua plantação. Para melhorar tal dor, ele costumava sentar, porém, mesmo em repouso, voltava a doer. Além disso, ele notou que a perna acometida ficava mais fria do que a outra, principalmente quando deitava e que os pelos tinham caído. Por fim, relatou que o membro ficava muito vermelho enquanto ele trabalhava, sendo perceptível a diferença com o outro membro, o que fez procurar atendimento médico prévio sendo diagnosticado com Erisipela, tomando Penicilina G-Benzatina, porém sem sucesso.

 

E aí, qual seria sua conduta frente à esse paciente? Talvez você já imagine o diagnóstico pela clínica, porém você sabe como examinar esse paciente pra confirmação? E a conduta prévia, você concorda com ela?

 

Há pouco tempo o The New England Journal of Medicine publicou um caso semelhante à esse, postando uma foto e levantando as opções seguintes: edema angioneurótico, insuficiência arterial, erisipela, microembolização periférica e flegmasia cerúlea dolens. Você já imagina qual deles podem ser? Observe a foto abaixo.

 

 

Sim, o diagnóstico, tanto da foto quando do caso clínico contado por nós é insuficiência arterial. Voltando as manobras de investigação, em casos de suspeita de problemas arteriais em membros inferiores, principalmente a aterosclerose, podemos fazer uma manobra bem conhecida por acadêmicos de medicina que estão no ciclo básico aprendendo semiologia: Manobra de Buerger. Ela consiste em elevar 45º – 60º passivamente a perna acometida do paciente perpendicularmente à ele, que estará em decúbito dorsal na maca para exame. Durante essa elevação, que deve ser feita de 1 à 2 minutos, o membro inferior com insuficiência arterial vai apresentar palidez, podendo até ficar cianótico em extremidades, justo pela dificuldade da chegada de sangue arterial naqueles tecidos. Ao abaixar e colocar em posição anatômica (horizontalmente) ou pendente (sentado), esse membro voltará para coloração normal e, segundos após, aparecerá um grande rubor, de coloração vermelho-azulado. Caso isso aconteça, podemos concluir que o teste é positivo e esse paciente apresenta uma insuficiência arterial periférica.

 

Esse caso demonstra que, meio à tantas inovações e a disponibilidade para utilização de exames complementares, a “velha e boa” medicina ainda é a melhor ferramenta de um bom médico. Segundo Weight, Rajachandran 2017, o teste de Buerger demonstra a importância de um exame físico mediculoso à beira do leito. Aquele que sabe realizar com maestria as manobras semiológicas para exercer um bom exame clínico, com certeza chegará em um diagnóstico preciso, exercendo uma propedêutica e uma terapêutica adequada ao paciente, diminuindo os gastos desnecessários da saúde. Mesmo com tanto à saber dentro dessa área linda, que é a medicina, devemos nos ligar ao principal que, apesar de rústico, ainda nos fornece grande parte dos diagnósticos sem necessidade de exames complementares. O método clínico deve ser sempre valorizado!

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1) Wright WF, Rajachandran M. Buerger Test for Eritromelalgia Revisited. J Am Osteopath Assoc 2017; 117 (2): 124–126. doi: https://doi.org/10.7556/jaoa.2017.023 . 2) Insall RL, Davies RJ, Prout WG. Significado do teste de Buerger na avaliação da isquemia de membros inferiores. JR Soc Med . 1989; 82 (12): 729-731. 3) The New England Journal of Medicine

Instagram: @tudodemedicina