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Leishmaniose: entenda sobre essa doença comum em regiões tropicais

Por: Pedro Rocha e Antônio H. Roberti.

 

O ano de 2020 começou e nós, do Tudo de Medicina, trouxemos uma discussão nos stories do Instagram sobre um caso clínico postado pelo The New England Journal of Medicine, que resultou em uma repercussão muito grande entre nossos seguidores. O diagnóstico é uma doença de grande relevância global, sendo uma das seis doenças infecciosas mais relevantes no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Por isso, vamos discutir sobre nesse comentário!

O caso clínico era sobre um jovem, do sexo masculino, de 19 anos de idade, que se apresentou ao serviço dermatológico com uma úlcera na mão direita de 3 centímetros de diâmetro com borda firme e múltiplos nódulos subcutâneos dolorosos no antebraço e cotovelos ipsilaterais. A fonte do caso sugeria algumas opções diagnósticas, assim como: goma sifilítica, leishmaniose cutânea, carcinoma basocelular, tinea manuum e pioderma tropical. Confira a imagem abaixo.

Diante da imagem acima, você já conseguiria pensar na hipótese diagnóstica mais provável? O ideal nesses casos seria solicitar uma biópsia para avaliar a etiologia da lesão, para que assim seja feita uma terapêutica correta e ideal. Entretanto, no caso acima foi realizada essa propedêutica, sendo diagnosticado com Leishmaniose. E aí, você conhece essa doença? Entenda um pouco agora!

A leishmaniose é uma doença infecciosa causada pelo parasita do gênero leishmania, o qual é um protozoário muito comum em áreas pobres, com grande relevância no território brasileiro. A transmissão ocorre através de um vetor, que é o inseto Lutzomyia longipalpis, popularmente denominado como mosquito-palha, birigui e asa-dura.

Somente a fêmea transmite a doença, pois ela alimenta-se de sangue para sua sobrevivência. No entanto, existe dois tipos de leishmaniose: a tegumentar ou cutânea (e seus subtipos) e a visceral ou calazar. O primeiro acomete a pele inicialmente, podendo evoluir para lesões nas mucosas do nariz, boca e garganta. Já o segundo acomete os órgãos internos, principalmente fígado, baço e medula óssea. O que vai definir qual tipo o paciente vai apresentar é o tipo de leishmania que está sendo transportada pelo vetor.
De um modo geral, os sintomas dependem do tipo de leishmaniose, sendo:

  • Cutânea: causada no Brasil pela Leishmania amazonensis e/ou Leishmania braziliensis, após 2 à 3 semanas após picada do inseto, aparece no local uma pápula avermelhada que aumenta de tamanho progressivamente, evoluindo para úlcera. Além disso, essas lesões podem aparecer na mucosa do nariz, boca e garganta.
  • Visceral: causada no Brasil pela Leishmania chagasi, o paciente inicia com uma febre irregular, prolongada, com quadro de adinamia, inapetência, anemia, perda de peso, palidez de pele e mucosas e hepatoesplenomegalia.

Em muitos casos, a hipótese diagnóstica é levantada mediante as características clínicas da lesão e a história epidemiológica compatível, porém sua confirmação é feita através de exames laboratoriais, assim como a detecção do parasita através da biópsia da lesão. No tipo visceral, o exame parasitológico dos órgãos acometidos pode evidenciar a forma amastigota do parasita. Caso a hipótese seja forte, porém os exames indicados não tenham chegado ao resultado, testes como imunofluorescência indireta e ELISA podem ser lançados como alternativas diagnósticas.

Por fim, o tratamento baseia-se no uso de antimonais pentavalentes, assim como o antimoniato de meglumina ou, como alternativa, anfotericina B lipossomal. Além disso, caso você esteja cuidando desse paciente em ambiente hospitalar, deve-se lembrar de associar protetores gástricos (omeprazol e/ou ranitidina), metoclopramida ou bromoprida em casos de náuseas, dipirona sódica ou paracetamol em caso de dor, profilaxia para TVP (enoxaparina), dieta oral livre e controle da glicemia e dos sinais vitais.