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Entenda o atual cenário da cirurgia bariátrica

Por: Pedro Rocha e Antônio H. Roberti.

 

 

No início do site do Tudo de Medicina fizemos um comentário de um artigo sobre a obesidade e sua fisiopatologia – se você ainda não leu, recomendo procurar em nosso site “obesidade: um problema de saúde pública”. Tal doença possui um caráter inflamatório crônico, sistêmico, de etiologia multifatorial, que acarreta à inúmeras consequências ao ser humano, sendo o Diabetes Mellitus uma dessas. Cerca de 20 milhões de brasileiros são obesos, demonstrando a relevância. Para classificação da obesidade, é utilizado o Índice de Massa Corporal (IMC), que apresenta limitações quanto à distribuição adiposa. Porém, em obesos com grau III de IMC (>40), o tratamento clínico por si só não é suficiente para esse indivíduo, principalmente quando ele já possui a doença em um longo período de tempo associado à comorbidades, sendo recomendada a cirurgia bariátrica, que consiste em retirar uma parcela do estômago e partes intestinais a fim de diminuir a área absortiva e aumentar a saciedade com pequenas quantidades de alimentos. Tal terapêutica começou a ser muito difundida nos últimos anos, principalmente pela capacidade de evitar complicações futuras ao paciente e/ou auxiliar no tratamento de comorbidades associadas.

 

Atualmente, existem diversas técnicas da cirurgia bariátrica, sendo o by-pass gástrico o mais comum, o qual diminui a cavidade gástrica resultando em menor quantidade de alimentos ingeridos e diminui a área de absorção intestinal. Outros tipos são: banda gástrica, o qual coloca um “anel” em torno do estômago de forma que ele diminua o tamanho desse órgão; gastrectomia vertical ou “cirurgia de sleeve”, onde há retirada de parte do estômago, mas preservando o trajeto do trato gastrointestinal; derivação biliopancreática, que retira uma porção do estômago e a maior parte do intestino delgado, ligando a parte proximal à parte mais distal; entre outras.

 

Com a crescente frequência de obesidade no Brasil, a cirurgia bariátrica passou a ser muito difundida, principalmente pelo caráter de proteção contra futuras doenças e comorbidades ocasionadas pela obesidade. Felizmente, essa terapêutica é feita pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. Para entender o atual estado dessa cirurgia e os fatores relacionados, foi realizado um estudo em Porto Alegre – RS em 2019 e publicado pelo Arquivo Brasileiro de Cirurgia Digestiva no mesmo ano, avaliando, através do DATASUS, as mudanças que ocorreram nos últimos 10 anos.

 

Os resultados desse estudo foram surpreendentes! Houve um aumento progressivo e relevante do número de cirurgias bariátricas realizadas no Brasil, com uma elevação de 339% – em 2008 foram realizadas 3.195 e em 2018 foram realizadas 10.852. Além disso, a técnicas mais utilizada em 94% dos casos foi o by-pass gástrico, principalmente pelo seu bom resultado no perfil metabólico do paciente, o aumento da saciedade (relacionado com a secreção de grelina), a perda ponderal e um bom resultado nos diabéticos pelo aumento da secreção de GLP-1. Por fim, a técnica laparoscópica foi utilizada em apenas 4,7% do total, mostrando que ainda há um caminho a ser seguido para maximizar essa conduta, uma vez que essa possui menores complicações quando comparada à cirurgia aberta.

 

Por fim, a difusão da cirurgia bariátrica no SUS é uma conquista, porém deve ser feita com cautela, seguindo os protocolos necessários para um bom prognóstico. Além disso, o treinamento para profissionais da saúde que atuam nessa área deve ser realizado com maestria, para que a incidência de erro cirúrgico seja mínimo. Ademais, não pode-se esquecer das medidas de prevenção, assim como as campanhas contra a obesidade e estímulos a atividade física e boa alimentação.

 

 

COMENTÁRIO DO ARTIGO: TONATTO-FILHO, Antoninho José et al . BARIATRIC SURGERY IN BRAZILIAN PUBLIC HEALTH SYSTEM: THE GOOD, THE BAD AND THE UGLY, OR A LONG WAY TO GO. YELLOW SIGN!. ABCD, arq. bras. cir. dig., São Paulo , v. 32, n. 4, e1470, 2019.