Cardiologia e endocrinologia

Psoríase: qual a ligação com a cardiologia?

Por: Pedro Rocha, Antônio Henrique Roberti dos Santos e Humberto Batista.

 

 

A psoríase é uma doença inflamatória crônica, não-contagiosa, autoimune, que ataca células da pele e as articulações, afetando cerca de 2% a 4% da população mundial. Suas causas ainda são desconhecidas, mas sabe-se que está ligada à fatores ambientais, genéticos e ao sistema imunológico. No paciente, ela destaca pela formação de placas cutâneas secas, vermelhas, escamosas e bem definidas, principalmente em joelhos, cotovelos, região lombar e couro cabeludo. Mas por que falar dela em cardiologia se ela atinge preferencialmente a pele? Por muito tempo se acreditou que essa doença atingia somente esse sistema do corpo, porém, hoje, o contexto é diferente. Por ser de caráter autoimune, ela também pode ter repercussões sistêmicas, como doenças cardiovasculares (DCV), endócrinas e articulares – pode estar ligada como fator predisponente do infarto agudo do miocárdio e acidente vascular encefálico, principalmente pelo remodelamento vascular promovido na sua fisiopatologia -. Além disso, promove resistência insulínica, aumentando a síntese de adipocinas, estimulando a disfunção endotelial. Isso mostra que psoríase não é assunto somente da dermatologia. Diante desse cenário, diversos estudos epidemiológicos evidenciaram a presença de uma alta prevalência de DCV em pacientes psoriásicos, além da síndrome metabólica e o diabetes mellitus.

 

Com esses aspectos, um estudo observacional, transverso e analítico, realizado em Belo Horizonte – MG entre 2016 a 2018, buscou analisar e investigar possíveis alterações cardiovasculares subclínicas em pacientes psoriásicos moderados a graves, sendo eles: rigidez arterial (RA), medida da espessura médio-intimal da artéria carótida comum (EMI) e alterações na função diastólica do ventrículo esquerdo (FDVE), somado a parâmetros clínicos e laboratoriais. Foram pesquisados 11 pacientes com psoríase que preenchiam os critérios da doença moderada à grave e 33 indivíduos sem DCV e psoríase como grupo de controle. Com isso feito, poderia contribuir para realização de medidas preventivas e terapêuticas precoces em pacientes com esse perfil.

 

Foi observado nesses pacientes elevação dos níveis de PCR, ocasionado pela intensa resposta inflamatória. Isso, somado com elevação da pressão arterial e níveis de LDL poderiam promover diretamente o remodelamento vascular e justificar as alterações hemodinâmicas encontradas. Além disso, foi observado aumento da velocidade da onda de pulso (VOP) nos pacientes pesquisados, contribuindo para o envelhecimento vascular e aumento do risco para DCV, aumentando a mortalidade. Apesar de não ser observado uma diferença substancial de disfunção diastólica nesses pacientes, a literatura aponta que há maior incidência nesses casos. Por fim, foi encontrado elevações da EMI carotídea e da pressão arterial central e periférica.

 

Conclui-se que, diante dos resultados obtidos, a prevenção de DCV em pacientes com psoríase é de suma importância, podendo ser observados através do EMI, RA e FDVE, além dos parâmetros clínicos e laboratoriais – principalmente o PCR para doença arterial coronariana. Além disso, a terapêutica precoce nesses pacientes diminui a mortalidade e melhora o prognóstico, devendo ser avaliados frequentemente. Por fim, a redução da inflamação parece ser a “chave” para a prevenção da DCV, necessitando maiores pesquisas sobre e criação de novos medicamentos que atuem também nesse processo.

 

 

COMENTÁRIO DO ARTIGO: OLIVEIRA, Angélica Navarro de et al . Risco Cardiovascular em Pacientes Psoriásicos: Avaliação de Parâmetros Clínicos, Funcionais e Morfológicos. Arq. Bras. Cardiol., São Paulo , v. 113, n. 2, p. 242-249, Aug. 2019.