Cardiologia e endocrinologia

Nova abordagem no tratamento de feridas por doença arterial periférica após revascularização cirúrgica

Por: Pedro Rocha e Antônio H. Roberti.

 

Cada vez mais estamos nos deparando no dia-a-dia com pacientes que apresentam úlceras em membros inferiores, seja pela insuficiência arterial ou venosa. Conseguir melhorar essa ferida, que na maioria atrapalha as realizações das atividades de vida diária, é uma tarefa difícil. Em muitos casos, esses indivíduos chegam ao atendimento já com a lesão em grande tamanho, com necrose e infecções e, em muitos, a única terapêutica possível é a amputação. Para tal, deve-se levar em conta o tipo e as características de lesão, sua etiologia, a idade do paciente, as comorbidades que esse apresenta e quais terapêuticas ele já utilizou – muitos já passaram por outros profissionais, porém não obtiveram o resultado esperado. Dentre os tratamentos possíveis, principalmente quando destacada a úlcera arterial, existe a opção cirúrgica, podendo ser aberta ou endovascular, para obter a revascularização do tecido e, em casos mais avançados, a amputação do membro. Entretanto, há técnicas conservadoras que podem colaborar com o quadro do paciente, principalmente naqueles com comorbidades que dificultam a realização da cirurgia e/ou após a intervenção. E é sobre esse assunto que vamos falar a partir de agora!

 

As úlceras em membros inferiores podem ser ocasionadas por diversos fatores, sendo eles: insuficiência arterial periférica pela interrupção da corrente sanguínea aos tecidos, principalmente pela ateroesclerose e microangiopatias periféricas; insuficiência venosa pela incompetência valvular, fazendo com que o sangue não consiga chegar ao coração e fique retido nos membros inferiores (MI). Outras doenças também podem resultar no aparecimento de feridas e úlceras nos MI, assim como a leishmaniose e o câncer de pele. Nesse comentário, iremos destacar a doença arterial periférica (DAP).

 

Atualmente, a doença arterial periférica representa cerca de 30% do total das úlceras em membros inferiores. O diagnóstico dela começa no exame clínico, observando as características da lesão e em torno dela. Você sabe os pontos principais a se observarem? Na lesão, olhamos o formato dela que tende a ser regular, bordas esbranquiçadas, pouco exsudativa, mal cheiro, com tecido de granulação, avermelhada e de medidas variáveis. Já em torno dela, a pele está fria, com perda dos pelos, sem edema, pulsos do membro filiformes ou ausentes e com dor variável que piora ao repouso e alivia quando abaixa o membro. Técnicas semiológicas como a Manobra de Buerger auxilia no diagnóstico. Muitos desses pacientes chegarão em seu consultório com quadro clínico prévio de doença cardiovascular e metabólica, assim como a Hipertensão Arterial Sistêmica, o Diabetes Mellitus, entre outras. Para ajudar no diagnóstico, além do exame clínico, deve ser solicitado um ecodoppler arterial dos membros inferiores, que evidenciará o local da obstrução.

 

Quando nos voltamos ao tratamento, existem diversas terapêuticas possíveis para ajudar no alívio dos sintomas, desde o uso de pomadas anti-microbianas e cicatrizantes, a cirurgia de revascularização e o debridamento em feridas mais avançadas. Porém, devido a crescente frequência da DAP e as úlceras ocasionadas por tal, novas abordagens vêm sendo estudadas, principalmente para aliviar o paciente após a intervenção cirúrgica, auxiliando no processo de cicatrização. Dentre essas, existe o curativo com filme e gel de biopolímero de celulose bacteriana (FGBCB), que já foi testado em vários estudos e obteve resultados positivos.

 

Um estudo realizado no Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco e publicado pela Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões em dezembro de 2019 buscou avaliar a eficácia do curativo com filme e gel de biopolímero de celulose bacteriana no tratamento de pacientes com feridas isquêmicas submetidos a revascularização dos membros inferiores. Para tal, fora utilizados 24 pacientes que preenchiam os critérios citados acima, sendo que: 13 pacientes utilizaram o curativo em estudo e 11 o curativo convencional. Dentre os resultados observados, alguns chamaram a atenção dos pesquisadores: quando observaram o tempo de cicatrização médio, que costuma ser entre 90 à 180 dias, em 50% dos pacientes que utilizaram o FGBCB esse tempo foi de apenas 90 dias, sendo que o mesmo tempo em pacientes que fizeram a terapêutica convencional foi menos de 20% deles. Além disso, o tempo para troca de curativo do FGBCB é maior do que o convencional, minimizando o sofrimento ocasionado pela dor nos pacientes durante a troca. Por fim, essa abordagem também pode ser feita em úlceras venosas, aumentando o espectro de ação e a eficiência dessa nova intervenção.

 

REFERÊNCIAS: MAIA, Allan Lemos et al . Curativo com filme e gel de biopolímero de celulose bacteriana no tratamento de feridas isquêmicas após revascularização de membros inferiores. Rev. Col. Bras. Cir., Rio de Janeiro , v. 46, n. 5, e20192260, 2019.