Cardiologia e endocrinologia

Urgência, emergência e pseudocrise hipertensiva: principais características clínicas

Por: Pedro Rocha, Antônio Henrique Roberti dos Santos e Humberto Batista.

 

 

As doenças cardiovasculares são o principal motivo das internações nos serviços de emergência e urgência atualmente, com cerca de 17 milhões de mortes por ano segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), sendo 9,4 milhões decorrentes de complicações da Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS). Porém, você sabe diferenciar emergências e urgências hipertensivas, decorrentes desse contexto citado. Os principais parâmetros para diferenciação são: na urgência, a pressão arterial diastólica estará acima de 120mmHg sem lesão de órgão-alvo, aguda e progressiva, com intervenção de combinação medicamentosa oral ambulatorial precoce, além de não haver risco iminente de morte; já na emergência, a pressão arterial diastólica estará acima de 120mmHg, com lesão de órgão-alvo, aguda e progressiva, com intervenção medicamentosa parenteral na UTI, havendo risco iminente de morte. Um exemplo de emergência hipertensiva é o infarto agudo do miocárdio, ou também um edema agudo de pulmão com insuficiência ventricular esquerda. Além disso, também existe a pseudocrise hipertensiva, que é pouco discutida, e tem a terapêutica com base na sintomatologia.

 

Um estudo transversal, retrospectivo, com aspecto quantitativo, realizado em São Vicente – SP em 2015 buscou verificar variáveis associadas à urgência, emergência e pseudocrise hipertensiva, analisando cerca de 500 pacientes. Nessa pesquisa, foram analisadas variáveis independentes (sexo, idade, motivo do atendimento) e as variáveis de desfecho (emergência, urgência e pseudocrise hipertensiva). A classificação da crise hipertensiva foi classificada por especialistas capacitados, além da observação de sinais, sintomas, variação da pressão arterial e um exame físico voltado ao cardiovascular.

 

Do número total de pesquisados, concluiu-se que a cada 1000 pessoas, 6 procuram o serviço hospitalar com crise hipertensiva, sendo que o maior número era de internações por urgência hipertensiva (70%), seguida da emergência e, por último, a pseudocrise, mais comum em mulheres após os 50 anos de idade. Além disso, observou que a PA na 1º medida era mais alta do que na 2º medida nesses pacientes, principalmente nos casos de emergência hipertensiva – nesses, na 2º medida, apenas a PA sistólica foi mais elevada -. As manifestações mais comuns foram: cefaleia, precordialgia, mal-estar, vertigem, problemas neurológicos, problemas emocionais, náuseas e dispneia. Quando comparado os pacientes com emergência hipertensiva com as outras duas classificações, notou que os sinais que predominavam nesses eram os problemas neurológicos e a dispneia. Nos pacientes com urgências, em relação às outras duas classificações, notou que a cefaleia, mal-estar e dor torácica eram mais comuns. Por fim, nos indivíduos com pseudocrise, em relação às outras duas classificações, notou que problemas emocionais e dor eram mais comuns. Nota-se então que esses sintomas são preditores de crise hipertensiva.

 

Por fim, é notório observar que a idade é uma variável importante, visto que as crises hipertensivas são mais comuns após a quinta década de vida. Já a cefaleia mostrou ser o sintoma mais comum das crises, estando intimamente ligada a desregulação dos mecanismos vasculares autorreguladores cerebrais, que controlam a pressão que o sangue chega ao cérebro, promovendo vasodilatação e aumentando o fluxo cerebral. Enquanto isso, problemas emocionais e dor estiveram mais ligados à pseudocrise. Além disso, é de suma importância a categorização da crise entre os 3 tipos, pois grande parte é classificada apenas em 2 tipos: ou é emergência, ou é urgência. Isso otimiza o tipo de intervenção que será efetuada. Isso mostra a importância de conhecer a sintomatologia mais comum de cada tipo de crise hipertensiva, para que se adote uma propedêutica e terapêutica adequada e precoce, melhorando o prognóstico desse paciente.

 

COMENTÁRIO DO ARTIGO: Pierin AM, Flórido CF, Santos J. Crise hipertensiva: características clínicas de pacientes com urgência, emergência e pseudocrise hipertensivas em um serviço público de emergência. Einstein (São Paulo), 2019.